janeiro 30, 2011

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Foi perdendo um centímetro por dia, ele. Ficou tão minúsculo que se habituou a encaixar seu corpo no vão da escrivaninha, com seus papéis e tintas, tentando destilar sua perspectiva terminal do mundo.

Ela perdeu substância, mas ganhou massa; acorda sempre mais inabitada, inominável no espelho. No espelho, hoje é o peso da desesperança.

Eu sinto, penso, mas não existo. Quando morri tornei-me um pombo negro, voando no anonimato da vulgaridade; só quando pouso percebo quanto medo, tanta mágoa…

O menino corre pela rua entretido, puro vento, quase plana. Não leva nada, não mede forças, acaricia a matéria e segue brincando; a alma ainda guia seu corpo, então ninguém o nota. Como não notam o velho morrendo na calçada, a vida aquartelada pela mente: não poder perder, conseguir chegar. Só isso, só isso.

Ela perdeu o brilho, mas ganhou cinismo. Sorri como se fosse de novo invisível, ninguém vê a diferença.

“Perdi a vida, mas ganhei asas” – encolhido entre as telhas que recobrem aquele pátio, ele se resigna.

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